Para que o trabalho do alfaiate não desapareça na roupa
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- Para que o trabalho do alfaiate não desapareça na roupa [Lendo agora]
- Valor de uso e Valor de Troca
Essa formulação não existe palavra por palavra em uma única frase de Karl Marx. No prefácio de Ler O Capital (“De O Capital à filosofia de Marx”), Louis Althusser (1979, p. 12) faz uma condensação livre – quase um jogo de palavras – ao agradecer a Jacques Lacan e a seus alunos para que “o ‘trabalho do alfaiate (não) desapareça… no casaco’ (Marx), mesmo que seja o nosso”. As reticências que o próprio Althusser insere no meio da expressão já indicam a costura de passagens distintas do Livro I de O Capital.
A alusão combina dois argumentos de Marx sobre a objetivação do trabalho na mercadoria. O primeiro aparece no Capítulo 1 (“A mercadoria”, Seção 2), quando Marx analisa o duplo caráter do trabalho representado nos objetos úteis. Ao comparar o casaco (Rock / habit) e o linho (Leinwand / toile), ele demonstra como a abstração do valor de uso apaga as qualidades concretas dos trabalhos específicos da alfaiataria e da tecelagem:
Assim como nos valores casaco e linho está abstraída a diferença entre seus valores de uso, também nos trabalhos representados nesses valores não se leva em conta a diferença entre suas formas úteis, a alfaiataria e a tecelagem. Assim como os valores de uso casaco e linho constituem nexos de atividades produtivas orientadas a um fim e realizadas com o tecido e o fio, ao passo que os valores casaco e linho são, ao contrário, simples geleias de trabalho, também os trabalhos contidos nesses valores não valem pela relação produtiva que guardam com o tecido e o fio, mas tão somente como dispêndio de força humana de trabalho. Alfaiataria e tecelagem são elementos formadores dos valores de uso, casaco e linho, precisamente devido a suas diferentes qualidades; constituem substâncias do valor do casaco e do valor do linho apenas na medida em que se abstraem suas qualidades específicas e ambas possuem a mesma qualidade: a qualidade do trabalho humano (Marx, 2013, p. 122).
Na edição da Boitempo, Rubens Enderle traduz o verbo alemão abstrahiert com rigor literal pela locução “não se leva em conta” (“não se leva em conta a diferença entre suas formas úteis, a alfaiataria e a tecelagem”). Contudo, na tradução francesa de Joseph Roy – a edição clássica revisada por Marx que Althusser lia e utilizava nos seminários da École Normale Supérieure –, esse mesmo verbo foi vertido livremente por disparaît (“desaparece”), fornecendo os termos exatos da paráfrase althusseriana:
“De même donc que dans les valeurs toile et habit la différence de leurs valeurs d’usage est éliminée, de même disparaît dans le travail que ces valeurs représentent la différence de ses formes utiles, taille de vêtements et tissage” (Marx, 1969, p. 51).
Traduzindo livremente para o português, a passagem de Roy poderia ser lida assim:
Assim como nos valores casaco [habit] e linho [toile] desaparece [disparaît] a diferença de seus valores de uso, assim também desaparece, no trabalho que esses valores representam, a diferença de suas formas úteis, alfaiataria [taille de vêtements: lit. “corte de roupas”] e tecelagem.
O segundo momento que sustenta a fórmula de Althusser está no Capítulo 5 (“Processo de trabalho e processo de valorização”, correspondente ao Capítulo 7 nas edições francesa e inglesa). É ali que Marx formula a tese de que o movimento vivo do trabalhador se extingue e se imobiliza dentro do objeto acabado:
No processo de trabalho, portanto, a atividade do homem, com ajuda dos meios de trabalho, opera uma transformação do objeto do trabalho segundo uma finalidade concebida desde o início. O processo se extingue no produto. Seu produto é um valor de uso, um material natural adaptado às necessidades humanas por meio da modificação de sua forma. O trabalho se incorporou a seu objeto. Ele está objetivado, e o objeto está trabalhado. O que do lado do trabalhador aparecia sob a forma do movimento, agora se manifesta, do lado do produto, como qualidade imóvel, na forma do ser. Ele fiou, e o produto é um fio [Gespinst] (Marx, 2013, p. 258).
Em francês, Joseph Roy verteu “Der Prozeß erlischt im Produkt” (“O processo se extingue no produto”) por “Le mouvement s’éteint dans le produit” (Marx, 1969, p. 183), retomando a imagem que Marx já havia empregado no Capítulo 3 (Seção 2), ao observar que o processo produtivo “desaparece no próprio resultado, sem deixar vestígios para trás” (Marx, 2013, p. 167; na versão de Roy: “disparaît dans son propre résultat et ne laisse aucune trace”).
Althusser sobrepõe o exemplo clássico do Capítulo 1 (o trabalho concreto do alfaiate incorporado no casaco) à regra ontológica do processo produtivo do Capítulo 5 (o movimento do trabalho que se extingue na imobilidade do produto acabado, tal como o ato de fiar que some no fio). O gesto tem uma função teórica na abertura de Ler O Capital: contra o fetichismo intelectual que toma o conceito pronto como um objeto dado, Althusser faz questão de deixar visíveis as marcas do trabalho alheio (a leitura sintomal inspirada em Lacan) que fabricou o “casaco” teórico que ele e seus coautores estão vestindo.
Referências Bibliográficas
ALTHUSSER, Louis. De O Capital à filosofia de Marx. In: ALTHUSSER, Louis; RANCIÈRE, Jacques; MACHEREY, Pierre. Ler O Capital. Tradução de Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. v. 1, p. 11-74.
MARX, Karl. Le Capital: Critique de l’économie politique (Livre Premier). Tradução de Joseph Roy. Paris: Garnier-Flammarion, 1969.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política (Livro I: O processo de produção do capital). Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.