Não leia Mark Fisher
Isso não é uma resenha.
É isso mesmo que você leu: não leia Mark Fisher, ou, pelo menos, não agora em 2026, ou quem sabe somente antes de ler este texto. Fisher é um autor importante, e um dos mais aclamados autores de esquerda radical da atualidade. Ele morreu tragicamente em 2017, mas, ao menos no Brasil, seu trabalho chegou um pouco tarde; não com menos impacto, novidade ou importância. Seu trabalho chega aqui completamente atual, mesmo falando de um mundo que nem chegara à década de 2010 ainda, nem viu nascer as redes sociais como as conhecemos hoje, mesmo assim consegue falar de tudo isso, quase como se ainda estivesse aqui sussurrando em nossos ouvidos, como um fantasma que assombra aqueles que desistiram de ver uma luz no fim do túnel; parece que seu livro acabou de sair do forno.
Realismo Capitalista chegou ao Brasil em 2020 por meio da editora Autonomia Literária, mas havia sido lançado originalmente em 2009 e escrito por volta de 2008. Caso você queira saber mais sobre o livro e seu autor, recomendo fortemente que vá até o texto escrito por Victor Marques e Rodrigo Gonsalves sobre o livro e seu autor, pois lá já foi dito muito - e muito bem -, e aqui nada tenho para acrescentar.
O que eu pretendo fazer aqui não é uma resenha do livro, é, podemos dizer, uma análise não convencional. Começarei com duas indagações e elas irão perpassar o restante do meu texto, e com elas vocês poderão decidir se irão ou não ler o livro de Mark Fisher. Lembrem-se: não levem minhas opiniões a sério, pois você só irá saber a verdade - ou melhor, a sua verdade - depois que você ler o livro por você mesmo, e não por intermédio meu ou outra forma que você achar mais conveniente.
Irei dividir essa resenha em duas: 1) Para as pessoas que deveriam ler o livro; 2) Para aquelas que não deveriam ler o livro. E sim, essas pessoas são completamente diferentes e o livro pode “bater” diferente em cada uma delas. Pode ser, também, que você leia essas duas propostas e veja valia em ambas igualmente, ou pode ser que você veja as duas sem valia alguma e decida por si só que ler ou não ler não fará diferença em sua vida, e isso diz muito, provavelmente mais que as outras possibilidades aqui propostas.
Por que você deveria ler o Realismo Capitalista?
Existem duas¹ pessoas aqui, tão simples como nosso sistema político (contém ironia).
Você é de esquerda e quer encontrar maneiras de mudar o mundo. Você acredita piamente que o mundo pode mudar e que você faz parte das pessoas que irão fazer isso acontecer. Além disso, você vê o capitalismo como algo passível de completa destruição e que algo novo pode emergir de suas ruínas.
Você é de direita e quer encontrar maneiras de mudar o mundo. Você acredita piamente que o mundo pode mudar e que você faz parte das pessoas que irão fazer isso acontecer. Além disso, você vê o capitalismo como algo que é impossível de ser destruído e até mesmo não gostaria que isso acontecesse, e que algo novo não pode/deveria emergir de suas ruínas.
Aqui existe um conflito inerente ao espectro político de vocês dois, mas também convergências. Vocês dois querem mudar o mundo, e vocês dois acreditam que uma mudança não cairia mal no mundo de hoje, pois, aparentemente, existe muita coisa errada nele.
¹ Fiquem calmos, eu sei que existem pessoas de esquerda que não querem o fim do capitalismo e o inverso também é verdade para a direita, mas essas pessoas vão, ainda, ser contempladas (espero).
Eu li este livro no mesmo momento em que descobri que Renan Santos (MBL/Missão) estava lendo “Desejo Pós-Capitalista”, também de Mark Fisher. Ele é um de vocês, mesmo que com algumas divergências internas ao grupinho da direita criado virtualmente por mim nessa resenha. Ele está fazendo o que eu gostaria que vocês fizessem. Portanto, vamos aos porquês:
Você deveria ler Mark Fisher porque ele irá caracterizar nossa realidade como uma realidade que vive em um Realismo Capitalista, portanto, não existiria realidade além da realidade do capitalismo como sistema de governo hegemônico. Vivemos eternamente em uma falta de alternativas, e isso é, em última instância, obra do próprio capitalismo. Estamos, assim, com um futuro fechado, vivemos aqui e por isso não temos para onde fugir, nos adaptamos a essa realidade dada e quem foge da regra é considerado diferente e deveria buscar se readequar à sociedade, seja tomando um remédio que iniba suas faculdades (ou mascarando sua diferença), seja aceitando que VOCÊ nada pode fazer para mudar. Sua infelicidade com o sistema é um erro, você tem que se adaptar, pois a adaptação é a forma principal da evolução da nossa espécie. O capitalismo é tão onipresente e onipotente que se torna algo natural e não construído. O “there is no alternative” [não há alternativa] (slogan de Thatcher nas décadas de 1980 e 1990) simboliza muito bem isso, uma vez que para ela, um dos maiores ganhos do seu governo foi ter feito até mesmo o partido opositor se adequar à nova realidade (Marques e Gonsalves, 2020).
E aqui eu não quero ficar ejaculando conhecimento desconexo de meu argumento somente para demonstrar a leitura do livro, quero, antes de mais nada, compreender junto com vocês os caminhos pelos quais este livro se faz necessário neste momento, tanto para você militante do MBL, quanto para você militante do PSOL, pois vocês dois, quer queiram ou admitam, dividem o mesmo chão e sentem a mesma falta de ar, ainda que culpem moinhos diferentes.
Para o militante do PSOL, o choque da leitura é um balde de água fria. A esquerda radical frequentemente opera sob a crença de que o sistema se sustenta pela ignorância das massas ou pela coerção policial direta. Fisher desmonta essa fantasia logo no início. O sistema opera com eficácia mesmo sob o deboche geral, uma vez que basta a repetição mecânica dos rituais cotidianos para que ele se mantenha de pé. Você pode odiar as corporações, colar cartazes revolucionários no poste, cantar hinos e ouvir rap combativo nos fones de ouvido. Contanto que pague o aluguel no quinto dia útil, passe o cartão na catraca e use as redes para expressar a sua revolta, o sistema acolhe essa raiva sem o menor pudor. O capital converte a própria transgressão em mercadoria. Anticapitalismo se torna produto. É a incorporação, a dissidência já vem empacotada de fábrica como mercadoria. Pior ainda para o militante comunista é encarar o conceito de “impotência reflexiva”. Ao observar seus alunos britânicos nos anos 2000, Fisher notou que eles sabiam muito bem que as coisas estavam erradas e indo buraco abaixo, mas essa lucidez trazia consigo apenas apatia, cinismo e depressão. Saber que a estrutura está podre não liberta ninguém quando o próprio imaginário sobre o futuro foi engarrafado, e a fila de carros está cada vez maior, sem previsão de avançar nem mesmo um metro.
Nem mesmo quando queremos acreditar que haverá crítica em uma peça de ficção, acabamos sempre voltando ao início, só que um pouco melhor, mas nunca a alternativa é a vitoriosa. Seja em Game of Thrones, em que Daenerys queria “quebrar a roda” e mudar tudo que estava aí, seja em The Boys que Butcher queria acabar com os “sups” e viver em uma sociedade sem a presença ameaçadora de seres superiores, seja em Wall-E, que Fisher usa de exemplo de maneira fascinante, o futuro sempre será vinculado ao presente do capitalismo e nunca fora dele: não há alternativa.
Já para o militante do partido Missão, o confronto é de outra ordem. A direita liberal brasileira passou a década de 2010 prometendo que a desregulamentação traria prosperidade, meritocracia e autonomia individual. O resultado prático foi uma burocracia corporativa quase que kafkiana, em que trabalhadores gastam horas preenchendo formulários inúteis para justificar a sua própria aptidão para uma vaga de trabalho (que será analisada por uma inteligência artificial mal treinada e extremamente mal programada e facilmente manipulada), vigiados por métricas que medem apenas a capacidade de simular rendimento e mindset certo com a empresa. Fisher dedicou páginas e mais páginas para mostrar como o neoliberalismo criou uma proliferação de auditorias internas, relações públicas e metas fictícias que sufocam a rotina produtiva. Ao mesmo tempo em que, a direita conservadora vive em pânico moral com a desintegração da família, a perda de vínculos comunitários e a decadência dos costumes, insistindo em culpar um suposto “marxismo cultural” e o “globalismo”. Isso é uma recusa voluntária em enxergar a raiz do problema. Fisher demonstra que quem corroeu os laços comunitários e as tradições foi o próprio mercado, cuja lógica exige transformar cada segundo do tempo e cada relação humana em oportunidade de negócio. Se Renan Santos sentou para ler “Desejo Pós-Capitalista”, quem sabe é porque percebeu que as cartilhas (padronizadas via cálculos imaginários) das privatizações e cortes orçamentários não oferecem resposta para o abismo social produzido por essas mesmas medidas.
O livro faz uma pergunta incômoda. Você defende a família, a comunidade e a tradição. O mercado que você defende desgasta essas três coisas. Como você resolve essa contradição?
Chegamos então à segunda parte da proposta…
Por que você NÃO deveria ler o Realismo Capitalista?
A resposta é uma e é prática: o livro pode empurrar você para o fundo do poço caso a leitura venha desacompanhada de compromisso e vontade política.
Fisher morreu em 2017, após anos de depressão. A dor dele não era nem de perto um recurso estilístico, era concreta, e tinha nome e sobrenome. O livro carrega essa carga e você vai senti-la a cada página. Em pleno 2026, com o trabalho precarizado (economia de bicos [gig economy]) por aplicativos ditando a sobrevivência, com a inteligência artificial pressionando até a criatividade, e com a solidão pelas telas normalizada (ao mesmo tempo que nunca estivemos tão conectados, nunca estivemos tão sozinhos), o diagnóstico sobre a privatização do sofrimento psíquico pesa, não é pouco, e não é um fardo fácil de carregar.
A sociedade capitalista ensina que ansiedade, esgotamento e desespero são defeitos de fábrica, e essa fábrica é você, o “indivíduo”, com uma falha na serotonina, dopamina, testosterona, falta de disciplina mental ou inaptidão para competir na selva de pedra que se tornou o mundo (a sobrevivência do mais apto, ou do mais manso?). A resposta do mercado é individualizada: consulte um psiquiatra, compre remédios, pratique meditação guiada no aplicativo (que a empresa contratou a assinatura), vá na academia (você agora tem gympass) e volte ao trabalho na segunda. Fisher sustenta que essa crise de saúde mental constitui a resposta direta de corpos submetidos a uma estrutura social doente, mesmo que vendida como desajuste químico do seu corpo. Essa constatação alivia, mas pode ser paralisante se não houver forma de canalizá-la.
Ler “Realismo Capitalista” trancado no quarto, sem ter onde encontrar formas de solidariedade e sem perspectiva, transforma a crítica em uma espécie de vocabulário (refinado) para o desespero. O leitor fecha o livro convencido de que a máquina é invencível, imparável, incansável, e essa convicção vira desculpa (mesmo que sofisticada e, agora, embasada teoricamente) para a inércia, uma vez que se nada tem conserto, resta cuidar dos próprios boletos e esperar o colapso, uma vez que a necessidade de comer é bem mais forte que a necessidade de lutar. Fisher rejeitava essa atitude, pois escreveu com a intenção explícita de romper o feitiço da inevitabilidade e forçar uma brecha na imaginação política, uma brecha de vislumbre de futuro.
Esse livro chegou até mim logo após eu estar disposto a perder completamente as esperanças de um futuro, ao mesmo tempo em que eu lutava para continuar acreditando que Um além da catástrofe era possível. Estamos constantemente lutando contra o fim do futuro, mesmo que agarrados ao passado e com os olhos fechados em direção ao futuro, que seja um futuro, não devemos temer sua chegada, mesmo que as vezes nublado, sempre há sol no fim da tempestade. Isso também não é razão para ser ingênuo e que as coisas vão mudar de uma hora para outra; requer trabalho, e, sim, muitas pessoas não estão dispostas, mas devemos lembrar que existem pessoas dispostas.
A decisão de abrir ou fechar o livro tem mais a ver com a forma de deglutir a falta de ar que o texto provoca - mesmo que involuntariamente. Se a leitura servir apenas para justificar o cinismo diante do que vivemos em 2026 e a iminência de um futuro apocalíptico, deixe o livro na estante. Se você tiver disposição para analisar a prisão (e quem te enfiou nela) sem transformar suas grades em desculpa para desistir, pode começar, mesmo que antes seja necessário um café, ou prolongar para um café com reels, quem sabe com uma ida ao banheiro, lavar as roupas… só mais um vídeo no YouTube sobre produtividade e você começa, combinado?
Eu li este livro de maneira não convencional a partir de um empréstimo da minha colega Anna, se você puder, ou quiser, compre-o.
Link para a loja: https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/realismo-capitalista/
Referências:
- FISHER, Mark. Realismo capitalista. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
- MARQUES, Victor; GONSALVES, Rodrigo. Contra o cancelamento do futuro: a atualidade de Mark Fisher na crise do neoliberalismo. In: FISHER, Mark. Realismo capitalista. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.